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Monthly Archives: Junho 2012

‘oedipus wrecks’ (1989)

Há um ano, inspirada pela idéia do Projeto Herzog, do @felipeta, iniciei o Projeto Woody Allen.  A ideia era assistir a todos os filmes de Woody Allen, em ordem cronológica, e fazer comentários sobre eles. Já havia assistido uns cinco filmes, mais ou menos, com certeza Manhattan, Annie Hall e Match Point. Obviamente, comecei pelo primeiro filme What’s new, pussycat? (1965). Escrevi um texto baseado apenas em minhas impressões do filme, ignorando como este dialogava com os filmes da época (que eu desconheço até hoje) e como o filme tem muito pouco de Woody Allen, por causa de toda a briga com estúdio, as mudanças do script, fazendo com que seu filme virasse algo inteiramente diferente da ideia original.

O meu projeto foi por água abaixo aí mesmo, logo no primeiro filme. Desanimei de escrever sobre os outros quarenta e poucos filmes por vir e comecei a assistir a obra de Woody Allen de maneira desorganizada e lentíssima, ignorando mudanças entre décadas, contexto, documentários sobre sua vida, sem tomar notas, nem nada.

‘love and death’ (1975)

No finalzinho do ano passado, resolvi criar um tumblr (http://projetowoodyallen.tumblr.com/) com os snapshots dos filmes que eu vi por último e de outros que vi repetido. Claro que a maioria ficou fora desse pequeno/preguiçoso registro e nem sei se vou rever tudo para postar lá. Fazer o quê.

Não sei o motivo de ter escolhido a obra de Woody Allen para conhecer melhor. Lembro-me de ter citado um trecho do texto ‘Leveza’, em Seis propostas para o novo milênio, do Italo Calvino, no primeiro texto do projeto, quando eu ainda achava que o negócio vingaria. Esse capítulo me fez traduzir melhor em palavras o que eu gostava na obra do Woody Allen. Era algo a ver com a diferença da leveza da frivolidade e a leveza do pensamento. Considero que a obra de Woody Allen é leve dessa segunda maneira, que consegue lidar com o que há de mais pesado com leveza; sem ser um humor vazio, alheio à melancolia, à tristeza e ao peso inerente à existência: “A leveza para mim está associada à precisão e à determinação, nunca ao que é vago ou aleatório. Paul Valéry foi quem disse: (….) [É preciso ser leve como o pássaro, e não como a pluma.” (Calvino, 1990, p. 28).

‘love and death’ (1975)

Algo que me fez gostar ainda mais de Woody Allen foi uma entrevista no documentário do ano passado, American Masters – Woody Allen: a documentary, em que ele fala sobre suas obras pós-Annie Hall que eram mais sérias, como Interiors e Stardust memories (esse último é um dos meus preferidos), e que foram muito criticadas. As pessoas queriam que ele voltasse à comédia – gênero que ele mesmo reconhece que tem mais facilidade para trabalhar. Porém, todos sabem de sua queda pelo drama, e como ele tentou se dedicar a isso. Enfim… Na entrevista, ele diz que tem mais prazer em fracassar em um projeto que ele está entusiasmado em trabalhar, do que ter sucesso em um projeto que ele sabe que fará bem. Ele diz que está disposto a fracassar sem nenhum problema e que não se importa com o sucesso comercial – que ele raramente o alcança. Depois finaliza esse trecho com algo que eu gosto muito: ele trabalha com a teoria da quantidade. Ele sente que se continuar fazendo filmes sem parar, de vez em quando vai dar sorte e algo muito bom aparecerá. E é exatamente isso que acontece. Eu gosto muito desse Projeto que eu estabeleci para mim para aprender isso. Continuar o que eu estou fazendo, apenas continuar. É impossível não se impressionar com uma obra imensa como essa, com raríssimos filmes realmente ruins – e mesmo os ruins (como Hollywood ending, que eu não gosto de jeito nenhum) ainda são deliciosos de assistir.

minha cena preferida de ‘stardust memories’ (1980)

Segue a lista de filmes do Woody Allen. O que está marcado, já assisti.

10s

2014 Magic in the moonlight

2013 Blue Jasmine

2012 To Rome with love

2011 Midnight in Paris

2010 You Will Meet a Tall Dark Stranger

00s

2009 Whatever Works

2008 Vicky Cristina Barcelona

2007 Cassandra’s Dream

2006 Scoop

2005 Match Point

2004 Melinda and Melinda

2003 Anything Else

2002 Hollywood Ending

2001 The Curse of the Jade Scorpion

2000 Small Time Crooks

90s

1999 Sweet and Lowdown

1998 Celebrity

1997 Deconstructing Harry

1996 Everyone Says I Love You

1995 Mighty Aphrodite

1994 Bullets Over Broadway

1993 Manhattan Murder Mystery

1992 Husbands and Wives

1991 Shadows and Fog

1990 Alice

80s

1989 Crimes and Misdemeanors

1989 New York Stories  (segment “Oedipus Wrecks”)

1988 Another Woman

1987 September

1987 Radio Days

1986 Hannah and Her Sisters

1985 The Purple Rose of Cairo

1984 Broadway Danny Rose

1983 Zelig

1982 A Midsummer Night’s Sex Comedy

1980 Stardust Memories

70s

1979 Manhattan

1978 Interiors

1977 Annie Hall

1975 Love and Death

1973 Sleeper

1972 Every Thing You Always Wanted to Know About Sex * But Were Afraid to Ask

1971 Bananas

60s

1966 What’s Up, Tiger Lily?

1965 What’s New Pussycat

“Sentamo-nos em frente à lareira e, sem pensar, levados apenas por um lamentável hábito, fotografamos um homem que, se não soubesse mais nada, parecia saber que projetava uma figura triste demais para aparecer em fotografias. Hoje tais imagens me parecem horríveis: meu pai na cadeira de rodas como uma marionete sem cordas, o olhar fixo e alienado, a boca entreaberta, os óculos manchados pelo flash e quase caindo do nariz; o rosto de minha mãe, a máscara de um desespero razoavelmente contido; e minha mulher e eu exibindo sorrisos grotescos ao nos aproximarmos para tocar meu pai.”

(Trecho do relato ‘O cérebro do meu pai’, de Jonathan Franzen, na Piauí, ed. 69)

http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-69/memorias-de-familia/o-cerebro-do-meu-pai

“Quando há morte, há uma organização. A morte se organiza. Quando há um morto há uma organização que se organiza em torno do morto. A morte não é nada fazer, a morte é organizar a morte do morto. Quando há um morto, é preciso se organizar, é preciso organizar sua morte, é preciso fazer sua morte. Fazer sua morte não é nada fazer, é preciso se organizar para fazê-lo, é preciso toda uma organização, a morte ela organiza, da morte ela faz uma organização, uma organização vai envolver o morto, a organização se enrola em torno do morto, é preciso fazer o morto, é preciso se organizar para fazer o morto, ela se organiza, ela quer fazer alguma coisa, ela deve se organizar para fazer alguma coisa, ela deve mover tudo que está em torno do morto, ela deve mover-se, a organização faz alguma coisa em torno do morto, a organização é tudo o que se faz para fazer a morte, é preciso fazer a morte, a organização é toda a morte, toda a organização se esforça para fazer morte, toda organização é atmosfera para fazer morte, a organização e a morte são uma só e mesma coisa. A organização é a morte.”

TARKOS, C. (sem título). Tradução de Masé Lemos. In: Inimigo Rumor. n. 16. pp. 65.

“De fato, eu queria me tornar uma pessoa melhor. Esse era o X da questão. Me tornar melhor, me tornar mais forte – tudo muito digno, eu suponho, mas também um pouco vago. Como é que a gente sabe que se tornou uma pessoa melhor? Não é a mesma coisa que ficar na faculdade durante quatro anos e receber um diploma para provar que a gente passou em todos os cursos. Não há um jeito de medir os nossos progressos. Então eu continuei, sem saber se estava melhor ou não, sem saber se estava mais forte ou não, e depois de um tempo parei de pensar no objetivo e me concentrei no esforço. (Pausa. Mais um gole de vinho.) Será que isso faz algum sentido para você? Fiquei viciado na luta. Eu me perdi de mim mesmo. Continuei fazendo, mas não sabia por que estava fazendo.”

AUSTER, Paul. Sunset Park. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. pp. 236

crio e deleto blogs com facilidade, a maioria não dura mais de uma semana e quase nunca eu os divulgo, exatamente porque sei que serão excluídos dentro de poucos dias. não gosto do que escrevo e não sei delimitar muito bem o que quero dizer. provavelmente você encontrará várias citações e imagens por aqui, uma miscelânea das coisas que eu gosto. não gosto de sair cagando opinião, então os posts devem ser mais descritivos que argumentativos. é isso.