sobre shônagon, s. o livro do travesseiro.

“Talvez seja pertinente relembrar aqui alguns dados sobre o sistema de casamento entre os nobres no período Heian (794-1192). De modo geral, o processo trilhava os seguintes passos: o jovem indaga a pessoas de seu meio acerca das moças disponíveis (seu caráter, histórico familiar, atividades artísticas) e, se interessado, envia-lhe uma carta de proposição de compromisso em forma de poema; ou a moça, que vive recôndita nos fundos de sua habitação e não se mostra a ninguém, é por ele ‘espiada’ (emprega-se aí o termo kaimani, ‘ver através de frestas’) em alguma breve atividade exterior, e ele lhe envia a proposta.

A resposta à carta-poema é efetuada por uma representante da dama e assim ocorre algumas vezes até que a própria moça se digne a escrever diretamente a ele (dado o sigilo e a importância de tais cartas de amor, elementos como a caligrafia, os aromas, os processos de dobras, os adendos e os emissários adquirem um caráter estético de suma importância).

Se houver interesse mútuo, o moço começa a visitar a dama à noite e eles se comunicam de maneira mediada, ela oculta por um cortinado, ele por um biombo, e devendo partir antes do amanhecer. A regra diz que após três noites consecutivas, acompanhadas de três cartas na manhã seguinte (kinuginuno fumi), ele pela primeira vez pode ver sua face. Os pais dela aparecem e selam o compromisso com taças de saquê. Ele então permanece mais tempo e os dois são considerados casados oficialmente. Como as esposas continuam a viver em seus lares de origem, recebem visitas amorosas dos esposos oficiais (matsu onna, ‘mulheres a esperar’ torna-se seu epíteto), sendo a influência de seus pais fundamental no exercício do poder político, pois as utilizam como ímãs sedutores e como progenitoras de possíveis futuros Imperadores que lhes ficam sob a guarda. As filhas passam a ter, então, excepcional valor, e são preciosamente escondidas dos olhares comuns atrás das cortinas, cortinados, biombos, treliças: a chama da lamparina e a penumbra (e seus correlatos: a ambiguidade, a alusão, o subentendido, a sutileza) passam doravante a estruturar a estética japonesa mais tradicional.”

WAKISAKA, G. CORDARO, M. H. Sobre a obra, a autora, o contexto e a tradução. In: SHÔNAGON, S. O livro do travesseiro. São Paulo: Ed. 34, 2013. pp. 21-2.

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