Arquivo

Monthly Archives: Julho 2017

Semana passada, assisti o documentário Laerte-se, produzido pela Netflix, com direção de Lygia Barbosa e Eliane Brum. Senti vontade de escrever algo aqui, porque algumas coisas do documentário ficaram reverberando com o passar dos dias.

O documentário começa com a Laerte se perguntando por que ela está sendo alvo de um câmera, por que a vida dela é digna de ser retratada em um documentário, por que a mídia se debruça sobre a vida dela. Depois ela completa: mesmo não entendendo muito bem esse interesse da mídia sobre sua vida, ela responde os questionamentos de seus entrevistadores porque a interessa também responder. Interessa-lhe falar sobre aquilo que ela está vivendo. E que o incômodo surge porque ela esconde a própria vida dela mesma. Achei isso muito bonito: saber que nós fugimos de nós mesmos e que somos alheios ao que nos é mais íntimo.

Quando a Laerte mostrava essa inquietação, eu pensava que era óbvio que a gente queria saber dela. Eu tenho a Laerte como uma pessoa com opiniões políticas muito sólidas e certeiras, com uma carreira brilhante como quadrinista. A Laerte da minha cabeça também sabe muito bem o que quer com o próprio corpo, com a própria vida, sabe muito bem que quer ser chamada de A Laerte, com o artigo feminino na frente do nome.

Ao longo do documentário, percebi que eu estava muito longe de estar certa sobre muita coisa que eu pressupunha. A Laerte que eu vi no documentário não é uma pessoa pronta, mesmo com 60 anos de idade, quando a gente acha que já vai saber tudo o que tem de saber da vida. A Laerte vai descobrindo aos poucos o que quer do próprio corpo, da própria vida, da sua própria maneira de se colocar no mundo. A Laerte se digladia entre os seus próprios desejos e como essas vontades podem ser realizadas dentro da nossa sociedade. E os desejos dela mudam e ela aos poucos vai descobrindo o que quer, como quer. Senti uma empatia muito grande por ela e, ao longo de todo o documentário, senti-me dentro do corpo dela, aquele corpo bonito com características de mulher e de homem. Contiguamente, senti um alívio imenso de não me sentir uma pessoa sólida, de não saber muito bem quem eu sou, o que eu quero, como eu quero. Senti um alívio imenso ao entender que a existência é tateante mesmo, que a gente nunca se sente pronto para nada.

Antes de sair de casa, eu olho no aplicativo do ônibus que a minha amiga me mostrou para ver quando meu ônibus vai passar. Estava marcado que ele passaria dentro de dois minutos. Saí correndo, “vai que eu consigo chegar em tempo”, pensei. Não cheguei. O ponto estava vazio, com cara de que um ônibus tinha acabado de passar ali. Sentei no banco, peguei meu livro e comecei a ler. Poucos minutos depois, um rapaz sentou ao meu lado. Não olhei para ele, continuei lendo meu livro. Algum tempo depois ele me perguntou quantas horas eram. Peguei o celular sem tirá-lo da bolsa, olhei as horas, olhei para ele e disse que eram 11h12. Ele agradeceu e eu voltei a ler meu livro. Passaram-se mais uns minutos, o suficiente para eu ler umas quatro, cinco páginas do meu livro. O moço virou para mim e disse que era um assalto, que ele estava armado e que era para eu passar o celular. Olhei para ele assustada. Ele estava com uma faca na mão. Eu me afastei dele, ainda sentada no banco e disse, meio sem pensar: “Que isso, moço! Num faz isso não”. Minha cabeça fervilhava. Pensei em sair correndo, em bater na mão dele para a faca cair, em entregar o celular. Ao mesmo tempo eu não queria entregar o celular, eu só não queria estar naquela situação. Nessa fração de segundos, eu estava olhando para ele, sem saber como agir. Ele retrucou: “Eu tô desesperado. Eu tô desempregado.”. Respondi de volta: “Eu também tô!”. Parece que naquele momento ele caiu em si. Ele começou a pedir desculpas e guardou a faca no bolso da mochila. Disse que não ia me assaltar, que não queria meu celular. Eu percebi que provavelmente aquela era a primeira vez que ele assaltava alguém. Ele caiu no choro, falou que estava desesperado, que ele não encontrava emprego de jeito nenhum e que estava perdendo a cabeça. Eu ainda estava anestesiada com a tentativa de assalto e tentei acalmá-lo, dizendo que estava tudo bem. Ele chorava muito, as lágrimas escorriam no rosto. Eu falei meio sem jeito para ele não fazer aquilo de novo, que ele ia encontrar um emprego. Ele riu nervosamente e perguntou se eu tinha filho. Porque ele tinha uma filha de dois anos, o gás dele tinha acabado e ele já não tinha dinheiro pra mais nada. Eu, de novo, sem saber como agir, disse que não tinha filhos e que não conseguia nem imaginar o que ele estava passando. Ele pediu para apertar minha mão, eu apertei a mão dele. Ele continuou dizendo que não aguentava mais fazer bico, que precisava de emprego. Disse desculpas de novo, mil desculpas, e que ele não iria me fazer mal, que ele iria embora naquele momento. Eu disse tchau e fiquei ali no ponto, com o livro na mão e comecei a chorar descontroladamente.