2017.

Antes de sair de casa, eu olho no aplicativo do ônibus que a minha amiga me mostrou para ver quando meu ônibus vai passar. Estava marcado que ele passaria dentro de dois minutos. Saí correndo, “vai que eu consigo chegar em tempo”, pensei. Não cheguei. O ponto estava vazio, com cara de que um ônibus tinha acabado de passar ali. Sentei no banco, peguei meu livro e comecei a ler. Poucos minutos depois, um rapaz sentou ao meu lado. Não olhei para ele, continuei lendo meu livro. Algum tempo depois ele me perguntou quantas horas eram. Peguei o celular sem tirá-lo da bolsa, olhei as horas, olhei para ele e disse que eram 11h12. Ele agradeceu e eu voltei a ler meu livro. Passaram-se mais uns minutos, o suficiente para eu ler umas quatro, cinco páginas do meu livro. O moço virou para mim e disse que era um assalto, que ele estava armado e que era para eu passar o celular. Olhei para ele assustada. Ele estava com uma faca na mão. Eu me afastei dele, ainda sentada no banco e disse, meio sem pensar: “Que isso, moço! Num faz isso não”. Minha cabeça fervilhava. Pensei em sair correndo, em bater na mão dele para a faca cair, em entregar o celular. Ao mesmo tempo eu não queria entregar o celular, eu só não queria estar naquela situação. Nessa fração de segundos, eu estava olhando para ele, sem saber como agir. Ele retrucou: “Eu tô desesperado. Eu tô desempregado.”. Respondi de volta: “Eu também tô!”. Parece que naquele momento ele caiu em si. Ele começou a pedir desculpas e guardou a faca no bolso da mochila. Disse que não ia me assaltar, que não queria meu celular. Eu percebi que provavelmente aquela era a primeira vez que ele assaltava alguém. Ele caiu no choro, falou que estava desesperado, que ele não encontrava emprego de jeito nenhum e que estava perdendo a cabeça. Eu ainda estava anestesiada com a tentativa de assalto e tentei acalmá-lo, dizendo que estava tudo bem. Ele chorava muito, as lágrimas escorriam no rosto. Eu falei meio sem jeito para ele não fazer aquilo de novo, que ele ia encontrar um emprego. Ele riu nervosamente e perguntou se eu tinha filho. Porque ele tinha uma filha de dois anos, o gás dele tinha acabado e ele já não tinha dinheiro pra mais nada. Eu, de novo, sem saber como agir, disse que não tinha filhos e que não conseguia nem imaginar o que ele estava passando. Ele pediu para apertar minha mão, eu apertei a mão dele. Ele continuou dizendo que não aguentava mais fazer bico, que precisava de emprego. Disse desculpas de novo, mil desculpas, e que ele não iria me fazer mal, que ele iria embora naquele momento. Eu disse tchau e fiquei ali no ponto, com o livro na mão e comecei a chorar descontroladamente.

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