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literatura

Então que eu dei uma sumida. Então que completou um ano que eu fui para Londres e há exatamente um ano atrás eu deveria estar jantando algum prato enorme de comida na minha casinha em St. John’s Wood. Então que eu estou feliz com alguém.  Então que eu estou supostamente no meu último período na Letras.

Hoje, tomando um chá com uma colega de Letras, que também está no último período, ela me perguntou porque eu não escrevia mais no blog. Disse que escrevia mais em Londres porque tinha mais coisas para contar. O que é uma grande mentira porque várias coisas estão acontecendo comigo nos últimos dias e meses. Talvez o terror desse semestre seja a monografia. Não sei se quero falar sobre isso no blog, sobre o processo de fazer esse trabalho, mas adianto que está sendo meio penoso, com algumas oscilações. (edit. Como você deve ter percebido pelo tamanho do texto, eu acabo falando, sim.) Hoje, por exemplo, estou me sentindo relativamente confiante e sigo com as minhas leituras, tentando arquitetar como será a escrita etc.

Conversando com uma amiga que está fazendo intercâmbio na França por Skype, ela me disse que a nossa área é muito ingrata. Estudar literatura é meio sofrido, porque você está sempre precisando passar por cima do seu ego. Teorizar em literatura depende muito do seu olhar. As pessoas dizem que você pode escrever sobre qualquer coisa – e pode mesmo, se fizer sentido. Mas aquilo tudo recai sobre você, porque é o seu olhar sobre o texto, a sua opinião que modelará a estrutura do seu trabalho. Lembro que no meu primeiro período da Letras, lia os textos teóricos em Teoria da Literatura I e aquilo tudo me parecia muito sobre o que eu penso sobre a vida, como eu enxergo o mundo. Então, escrever uma monografia sobre literatura é sempre uma questão pessoal, o que é ótimo, mas pode ser a ruína também.

Escrever uma monografia não é só escrever uma monografia. Você aprende muitas coisas junto com o fazer desse trabalho. O que eu estou aprendendo a passos lentos e que está travando que eu avance na escrita, é acreditar mais no meu trabalho. Acreditar que o que eu estou escrevendo e pesquisando tem valor para mim e para os outros que lerão. Eu tenho problemas em acreditar em mim mesma e acho tudo que eu faço horrível. Instintivamente, eu me recolho, não escrevo para não ter que enviar nada para o meu orientador e ser avaliada. Daí o tempo vai passando, não consigo pedir ajuda e vira aquele bololô todo. É tão grave o negócio que eu acho que meus questionamentos são idiotas demais a serem dirigidos para meu orientador. Enfim, devagar estou conseguindo mudar isso, como disse antes. O problema que isso tudo é muito meu. Eu me lembro de reclamar dessas mesmas coisas desde 2011, sempre penando, sempre fugindo, fingindo que não dava importância pra uma das coisas que eu mais me importo.

Hoje, por exemplo, li um texto que me deu uma alegria tão grande, porque aprendi tanta coisa e se encaixa tão bem com o que eu precisava estudar. São nessas horas que a gente vê que vale a pena e eu sei que é isso que eu gosto de fazer. Mas às vezes esses momentos são rarefeitos e é muito fácil esquecer qual é o propósito disso tudo e a gente se pergunta: o que eu estou fazendo com a minha vida?

É muito difícil se manter motivado, especialmente numa área que não tem motivação exterior nenhuma. Outra coisa que tem me chateado muito é que estou fazendo a última disciplina para me formar, toda baseada em seminários e eu simplesmente caí no pior grupo que eu poderia ter caído. Gente que falta à apresentação em grupo, gente que manda a parte escrita do trabalho no dia que deve entregá-lo e só seis linhas escritas. É nesse nível. Posso dizer que estou fechando o ciclo de cumprir créditos com uma cereja em cima de um bolo de chorume.

Bom, mas vamos lá, né. Segue o baile.

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“Talvez seja pertinente relembrar aqui alguns dados sobre o sistema de casamento entre os nobres no período Heian (794-1192). De modo geral, o processo trilhava os seguintes passos: o jovem indaga a pessoas de seu meio acerca das moças disponíveis (seu caráter, histórico familiar, atividades artísticas) e, se interessado, envia-lhe uma carta de proposição de compromisso em forma de poema; ou a moça, que vive recôndita nos fundos de sua habitação e não se mostra a ninguém, é por ele ‘espiada’ (emprega-se aí o termo kaimani, ‘ver através de frestas’) em alguma breve atividade exterior, e ele lhe envia a proposta.

A resposta à carta-poema é efetuada por uma representante da dama e assim ocorre algumas vezes até que a própria moça se digne a escrever diretamente a ele (dado o sigilo e a importância de tais cartas de amor, elementos como a caligrafia, os aromas, os processos de dobras, os adendos e os emissários adquirem um caráter estético de suma importância).

Se houver interesse mútuo, o moço começa a visitar a dama à noite e eles se comunicam de maneira mediada, ela oculta por um cortinado, ele por um biombo, e devendo partir antes do amanhecer. A regra diz que após três noites consecutivas, acompanhadas de três cartas na manhã seguinte (kinuginuno fumi), ele pela primeira vez pode ver sua face. Os pais dela aparecem e selam o compromisso com taças de saquê. Ele então permanece mais tempo e os dois são considerados casados oficialmente. Como as esposas continuam a viver em seus lares de origem, recebem visitas amorosas dos esposos oficiais (matsu onna, ‘mulheres a esperar’ torna-se seu epíteto), sendo a influência de seus pais fundamental no exercício do poder político, pois as utilizam como ímãs sedutores e como progenitoras de possíveis futuros Imperadores que lhes ficam sob a guarda. As filhas passam a ter, então, excepcional valor, e são preciosamente escondidas dos olhares comuns atrás das cortinas, cortinados, biombos, treliças: a chama da lamparina e a penumbra (e seus correlatos: a ambiguidade, a alusão, o subentendido, a sutileza) passam doravante a estruturar a estética japonesa mais tradicional.”

WAKISAKA, G. CORDARO, M. H. Sobre a obra, a autora, o contexto e a tradução. In: SHÔNAGON, S. O livro do travesseiro. São Paulo: Ed. 34, 2013. pp. 21-2.

“Turning-points are the inventions of story-tellers and dramatists, a necessary mechanism when a life is reduced to, traduced by, a plot, when a morality must be distilled from a sequence of actions, when an audience must be sent home with something unforgettable to mark a character’s growth. Seeing the light, the moment of truth, the turning-point, surely we borrow these from Hollywood or the Bible to make retroactive sense of an overcrowded memory?”

MCEWAN, I. Black dogs. London: Vintage books, 1998. pp. 50

“In the old way of thinking, no matter how much you may have, there is always something missing. The name you choose to give this something-more that is missing is passion. Yet I am willing to bet that if tomorrow you were offered all the passion you wanted – passion by the bucketful – you would promptly find something new to miss, to lack. This endless dissatisfaction, this yearning for the something-more that is missing, is a way of thinking we are well rid of, in my opinion. Nothing is missing. The nothing that you think is missing is an illusion. You are living by an illusion.”

COETZEE. J. M. The childhood of Jesus. London, Harvill Secker, 2013.

Esse final de semana está sendo mais tranquilo. Ontem pela manhã, acabei novamente perdendo um tempinho fazendo as atividades da escola e sobrou só umas duas horas para sair. Fui à Foyles (http://www.foyles.co.uk/), uma das grandes livrarias daqui, que existe desde 1903. Dá vontade de morar lá dentro, sério. Você encontra qualquer tipo de livro. Me acabei ali, deu vontade de levar metade para casa. As seleções de poesia e de quadrinhos são ótimas. Comprei o novo Coetzee, The childhood of Jesus, que estava doida para ler. Já comecei a leitura hoje cedo e estou gostando muito.

Ontem à noite fui ao cinema na Leicester Square. Primeira aventura: peguei o metrô na hora do rush. Encontrei com duas meninas da minha escola, fomos à Chinatown e comemos comida taiwanesa. Pedimos um arroz meio frito com frutos do mar, berinjela com molho de alho e um negócio esquisito que não comemos e até agora eu não sei o que seja. Estava uma delícia. Depois fomos ao cinema e assistimos Side effects, com a linda da Rooney Mara e o incrível Jude Law. Filme bem mais ou menos, fala da indústria farmacêutica, do sofrimento de pessoas em depressão com medicamentos e todo o dinheiro que circula por trás disso. Começa como um filme mais introspectivo e depois muda para um filme de suspense, thriller. Sabe aquele tipo de filme que você sente que é de Hollywood, que tenta demais e você percebe as engrenagens do cinema funcionando por trás? É isso. Não gostei. Apesar de crucial para a trama, metade do filme fiquei pensando o que a Catherine Zeta-Jones estava fazendo ali.

Depois peguei um dos últimos horários do metrô e é muito legal como a atmosfera muda se comparado à manhã. As pessoas estão conversando, energéticas, empolgadas. Tem um senso de camaradagem entre todos, junto com a aura daqueles músicos de metrô que ficam nos corredores animando ainda mais a cena.

Hoje cedo eu me programei para ir ao Borough Market, porém… Neve. Ok, mudando de planos para fazer uma atividade em lugar fechado. Minha colega de sala e seu colega de casa sugeriram cinema na Leicester Square de novo. Ok, né. Fomos. Tamos aí. Almoçamos em um restaurante chinês na própria praça e assistimos Robot & Frank. Gostei, fofinho. É um filme nada pretensioso, feito para ser água com açúcar mesmo. Entretenimento honesto, por isso gostei. Comi pela primeira vez na vida Ben & Jerry’s e quis me casar com esse sorvete. Depois sugeriram ir à National Gallery, mas nenhum dos dois gostavam de arte, então voltamos para casa. Eu e minha roommate tomamos chá e conversamos bastante. Sim, aqui minha casa é tipicamente inglesa. Então, toda hora alguém faz a pergunta inevitável: “Tea?” e “With milk?”. Depois fomos jantar sopa, maravilha nesse tempinho e voltamos. Foi ótimo passar um tempo a mais com ela e foi a primeira pessoa com quem consegui falar de coisas mais pessoais. Como ninguém se conhece e eu saio com intercambistas, sempre rola o bom e velho small talk. De onde você vem, o que faz da vida. É muito engraçado conhecer tantas pessoas do zero assim, em conjunto. E todos sempre muito dispostos a conversar, a ter amizades. Essa é uma das melhores coisas de um intercâmbio. É tudo novo, tudo começa do zero e você vai construindo coisas.

“So many strange things have happened to me in my life, so many unexpected and improbable events, I’m no longer certain that I know what reality is anymore. All I can do is talk about the mechanics of reality, to gather evidence about what goes on in the world and try to record it as faithfully as I can. I’ve used that approach in my novels. It’s not a method so much as an act of faith: to present things as they really happen, not as they’re supposed to happen or as we’d like them to happen. Novels are fictions, of course, and therefore they tell lies (in the strictest sense of the term), but through those lies every novelist attempts to tell the truth about the world. Taken together, the little stories inThe Red Notebook present a kind of position paper on how I see the world. The bare-bones truth about the unpredictability of experience. There’s not a shred of the imaginary in them. There can’t be. You make a pact with yourself to tell the truth and you’d rather cut off your right arm than break that promise.”

Entrevista para Paris Review : (http://www.theparisreview.org/interviews/121/the-art-of-fiction-no-178-paul-auster)

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“Baudelaire: Il me semble que je serais toujours bien là où je ne suis pas. Em outras palavras: Parece-me que sempre estarei feliz no lugar onde não estou. Ou, mais curto e grosso: Onde quer que eu não esteja, é aí que estou de verdade. Ou ainda, pegando o touro a unha: Em qualquer lugar fora do mundo.”

AUSTER, P. Cidade de vidro. In: ____. A trilogia de Nova York. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. pp.  124

A trilogia de Nova York, de Paul Auster. É uma série de novelas (Cidade de vidro, Fantasmas e Quarto fechado) publicada nesse único volume, em 1987. Acredito que seja o livro mais conhecido e importante de Paul Auster. Li apenas TimbuktuSunset park e deu vontade de conhecer um pouco mais a sua obra. Estou ainda na primeira novela. Segue um trechinho:

E depois, mais importante que tudo: lembrar quem sou. Lembrar quem se supõe que eu seja. Não acho que se trate de um jogo. Por outro lado, nada está claro. Por exemplo, quem é você? E se você acha que sabe, por que continua a mentir? Não tenho resposta. Tudo o que posso dizer é o seguinte: ouçam-me. Meu nome é Paul Auster. Este não é meu nome verdadeiro.” (AUSTER, 1999, p. 50)

paul auster chatiado

Café Biografias. Café situado na varandinha do segundo andar do edifício Arcângelo Maletta. Como disse a Laura, é bom tomar café e ver a vida acontecendo lá embaixo. Fui lá na hora do rush e é mesmo bom relaxar e ver as pessoas saindo do trabalho, fazendo o que quer que seja que elas fazem ali embaixo, na rua da Bahia. Além do visu, meus cumprimentos aos sanduíches incríveis a preços satisfatórios e os cafés gostosos. Vale muito a pena.

Murder Ballads, Nick Cave and the Bad Seeds. Álbum mais tocado no meu iPod nos últimos dias. Não conhecia Nick Cave, podem me julgar. Esse foi o primeiro álbum que caiu nas minhas mãos. Quero me casar com Henry Lee, o dueto com a PJ Harvey